| Em um momento ignorante de usurpação do clichê, optei por agraciar este nosso belo espaço de música nova com algo velho, clássico e que representasse os últimos trinta e poucos anos de um estilo ainda mais usurpado do que o clichê da lista de coisas-que-você-tem-que-ouvir-antes-de-morrer: o punk.
Antes de partir para a lista propriamente dita, no entanto, gostaria de estabelecer uma metodologia. Em primeiro lugar, MC5 e Iggy and The Stooges estão de fora. Velvet Underground, New York Dolls e Television também. Legs McNeil e Gillian McCain podem espernear à vontade, mas aqui todas essas grandes bandas vão ficar guardadas na gaveta do “pré-punk”.
Justificativas? Bom, MC5 e Stooges vieram antes dessa onda toda. Velvet Underground é avant garde (demais) - se estivesse vivo, Andy Warhol não me deixaria mentir. New York Dolls e Television também ainda não tinham muito daquilo que ficou consagrado como punk, aquelas distorções instrumentais e desafinações vocais terríveis de que tanto gostamos; ambas cabem dentro de art rock ou qualquer coisa assim.
Claro que rótulos são apenas rótulos. O fato de Iggy Pop ser mais da velha guarda não significa que ele seja menos punk do que Sid Vicious (que, por sinal, era tão punk que morreu aos 27 sem fazer absolutamente nada da vida além de tocar mal por um ano e meio no Sex Pistols). Se eu fosse purista como os supracitados autores de Mate-me Por Favor, minha listagem começaria com Patti Smith e acabaria com Dead Boys, sem nenhum britânico nela. No entanto, não o sou. E atravessei minha adolescência ouvindo coisas muito menos pretensiosas do que a cena vanguardista de Nova York. Portanto, fica aqui estabelecido que, para fins práticos, tudo começa no primeiro disco dos Ramones, de 1976.
Enfim, segue a lista das quinze músicas que você já deveria ter ouvido 300 mil vezes na sua vida:
- Ramones - Now I Wanna Sniff Some Glue
Do álbum primogênito da banda preferida de dez entre dez pseudo-punks de 16 anos, essa canção de nome tão singelo é uma pérola do senso de humor levemente canalha de Dee Dee Ramone
- Sex Pistols - Pretty Vacant
Os Pistols nasceram com talvez quatro objetivos de vida, dos quais ao menos dois foram devidamente arquitetados por Malcolm McLaren: chocar, xingar a rainha, reclamar dos altos índices de desemprego da era pré-Thatcher e vender. Carregada daquela ironia tão rotteniana, Pretty Vacant se enquadrava justamente na terceira meta. O que não significa que não buscasse as outras três
- The Buzzcocks - Ever Fallen In Love
O Buzzcocks inventou o pop punk, mas nem venham com essa de chamar de emo. A música escolhida para essa lista, de 1977, é provavelmente a mais famosa, mais pop, e a que menos fala em ereções
- The Clash - Clash City Rockers
Sendo esta uma lista óbvia, não poderia faltar uma farofada qualquer do Clash. Tão farofa essa de 1978, no caso, que chega a citar Gary Glitter
- Sham 69 - If The Kids Are United
De 1978, a música era pra ser um hino de união entre bancas de punks e skinheads que à época inflamavam a Inglaterra com tretas medonhas. Também era pra ser um hino de união entre as diversas facções de skins que habitavam o underground inglês. Obviamente, não deu certo. Mas ainda é bem bacana
- Stiff Little Fingers - Alternative Ulster
Single de 1978, depois gravado no álbum Inflammable Material, de 1979. A banda de Belfast, Irlanda do Norte, era meio que rival da igualmente norte-irlandesa Undertones quando apareceu. Tudo por conta de questões políticas
- Dead Kennedys - Holiday In Cambodia
A banda reformada que passou pelo Brasil em 2002 era puro caça-níquel, mas quando Fresh Fruit For Rotten Vegetables saiu em 1980, Jello Biafra comandava o negócio e fazia questão (como ainda faz) de escancarar todas as mazelas da humanidade. Um exemplo? O massacre proporcionado por Pol Pot e seu Khmer Vermelho no Camboja
- Cockney Rejects - Oi! Oi! Oi!
Skinheads, hooligans, loucos pelo Westham. Na ativa até recentemente, os Rejects são do tipo que promove o oi! (como dá pra reparar pelo título da música, de 1980) e cancela shows que caem em dia de rodada. Nos idos dos anos 80, quando começava o quebra-pau enquanto estavam tocando, os caras desciam do palco e partiam pra briga
- The 4-Skins - One Law For Them
Como toda boa banda de skinheads, acabou levando a culpa pelas tretas dos outros. Ninguém mandou pôr o dedo nas desilusões da classe operária. One Law For Them foi o primeiro single dos caras, de 1981
- The Exploited - Sex And Violence
Do primeiro disco da banda (Punk’s Not Dead, de 1981), são cinco minutos de pura concisão. Ouça e comprove
- Os Replicantes - Festa Punk
A essa altura, você provavelmente notou que eu não tenho credibilidade. E que sequer estou tentando disfarçar. A bestíssima Festa Punk, de 1987, é tão boa quanto várias outras de Wander Wilder e coleguinhas
- Bikini Kill - Rebel Girl
Apareceu em um split de 1993 de nome Yeah Yeah Yeah Yeah. Petardo algo dyke de uma das mais importantes referências entre as bandas feministas, tem todo um apelo adolescente irresístivel
- Pennywise - Bro Hymn
O clássico da banda californiana tem duas versões: a primeira, de 1993, do álbum homônimo à banda, e a renomeada como Bro Hymn Tribute encontrada em FullCircle, de 1997. A regravação foi uma homenagem ao baixista fundador Jason Thirsk, que se suicidou em julho de 1996. Quando esta corneteira estava no colégio, a maioria dos fãs de punk do bairro só sabiam cantar o refrão
- Rancid - Timebomb
Quem tinha entre 11 e 19 anos em 1996 ouviu essa música nas rádios rock brasileiras até não agüentar mais. A voz acabada de Tim Armstrong, a guitarrinha ska e o solo de órgão (cortesia de Vic Ruggiero, do Slackers) são inesquecíveis
- Dropkick Murphys - I’m Shipping Up To Boston
Muita gente diz que esses caras são a melhor banda de punk dos últimos tempos. Merecendo ou não o título, I’m Shipping Up To Boston entrou na lista simplesmente porque é boa. E é aquela coisa bem “sou de Boston, filho de irlandês e bebo pra caralho”. Está no álbum The Warrior’s Code (de 2005) e na trilha sonora de Os Infiltrados
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