Ela fala de divórcio, filhos e dramas da meia-idade como quem conversa com a amiga numa tarde qualquer
Tracey Thorn Love and Its Opposite
O grande destaque de Tracey Thorn sempre foi sua voz miúda, sem um só melisma ou efeitos eletrônicos de distorção. E continua sendo.
No baixo, Al Doyle, do Hot Chip. Bateria a cargo de Leo Taylor, do Invisible. O resto da instrumentação, no teclado do produtor Ewan Pearson. O que isso significa? Pouco. De uma leveza adequada à voz de Tracey, a melodia só acompanha as frases ou simplesmente comparece. Batidas, quando existem, são leves. Melhor momento: Oh, the Divorces!, em que acordes simplezinhos de um pianinho acompanham os versos.
Há uma vantagem em relação aos seus outros discos solo. No primeiro, A Distant Shore, sua voz está praticamente nua, só com um violãozinho, isso antes ainda do Everything But the Girl (1982). Em Out of the Woods, de 2007, o vocal se mescla à profusão de sons e batidas eletrônicas. Rola um equilíbrio entre ambos em Love and Its Opposite, mas sua voz é protagonista.
Temas da meia-idade permeiam todo o álbum. Apesar dos seus 37 anos, Tracey não fala em primeira pessoa, ou pelo menos não fala de si mesma (e ela é casada e mãe de três filhos). Fala do que vê a sua volta: amigos se divorciando (Oh, the Divorces!), mulheres a procura de novos parceiros (Single Bar) e filhos adolescentes (Hormones). E sem parecer reclamona, pessimista ou melancólica — mérito da sua voz e sua poesia sem metáforas, quase que meramente narrativa.
Parece que não há esforço para haver hits, a força está distribuída por todas as faixas. Tem o clima de uma conversa no café da tarde.
De voz grave mas não pesada, o jovem (o que ele tem de idade, Tracey tem de carreira) sueco Jen Lekman faz dueto em Come Home to Me, uma das duas músicas não compostas por Tracey (a outra é You Are a Lover). Resultado feliz.
O Everything But the Girl, embora não oficialmente encerrado, está em um hiato indeterminado. Se, depois de duas décadas de convívio Tracey e sua dupla Ben Watt resolveram finalmente se casar, imagina quanto tempo esse casal enrolado vai resolver lançar um disco? Vale enquanto isso aproveitar a bela voz dela.
Você pode ouvir o álbum todo aqui:
Para ir mais longe
Everything But the Girl — Missing (Everything But the Girl, 1997)
Massive Attack e Tracey Thorn — Protection (Protection, 1997)
Tracey Thorn — It’s All True (Out of the Woods, 2007)
Tracey Thorn — Femme Fatale (A Distant Shore, 1982)