Rafael Baioni

29 de maio de 2010
0:23

Não estava Jesus pelado na cruz?

Seria um equívoco a presença de Pai e Filho de Sokurov na Mostra de Cinema LGBTT?

Pai e Filho (2004)

O filme Pai e Filho (2004), de Alexander Sokurov, numa Mostra de Cinema LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros) pode significar duas coisas: um triste equívoco ou um lampejo de consciência excepcional.

A primeira cena, uma das mais memoráveis na minha história com o cinema, é um emblema ideológico do filme e ilustra como nenhuma outra o motivo do possível equívoco. Uma câmera percorrendo de muito perto dois belos corpos masculinos, o som de gemidos e um close num buraco na carne chamado boca, evocados outros, são, sim, a cena de sexo esperada o filme todo e nunca realizada, nem deveria. Achar que o filme se trata de uma relação incestuosa (levada a cabo ou não) entre pai e filho é ficar no choque inicial que essa cena possui. Pois é evidente, está lá o nome, “pai e filho”, dois homens, os dois, nus, aparentemente, “se pegando”, qualquer um poderia dizer. Porém, permanecer nessa idéia significa estar chocado demais para se deixar experimentar pelo que é revelado a seguir: um pesadelo, eram os gemidos, e o corpo do filho se debatia nos braços do pai que o acalmava.

Sokurov tem uma maneira muito íntima e singular de mostrar seu mundo, a destacar o efeito esfumaçado que não é exclusivo de Pai e Filho. Mãe e Filho (1997) já mostrava essa estranha neblina, talvez a travessia, na imagem, entre o mundo(s) interno e o externo, velha fronteira, nesse caso, ameaçada pela morte do nosso outro mais nosso que qualquer outro.  Assim também, em O Sol (2005), Sokurov se valerá do mesmo recurso, mais sutil dessa vez, para apresentar a delicadeza assombrosa – em ambos os sentidos – com que a interioridade e a exterioridade convivem no palácio de um homem que era deus, Hirohito, no momento mítico e fatídico em que pela primeira vez esse santuário humano, demasiado humano, é invadido pela brutalidade quase infantil do exército americano. Numa guerra como essa, para a qual faltam palavras e não faltam imagens obscenas de atos poderosos, de todos os lados – e que insistem em aparecer, ainda que nos sonhos do Imperador –, Sokurov escolhe me mostrar, como ninguém antes foi capaz, o horror da barbárie em um gesto simples como pisar na grama. Não é pouco.

Interpretar o amor entre pai e filho como perversão seria uma violência que uma mostra LGBTT nunca faria. Tenho convicção de que a intenção é exatamente oposta. Porém, interpretar como amor homossexual, ainda que com a intenção mais progressista e humanitária, é pisar na grama do delicado jardim que o autor nos convidou a entrar.

O amor de um pai crucifica. Essa é a frase que Sokurov faz ecoar sobre as imagens, e isso não pode ser ignorado. Frase dura, mais imagem que muita imagem, resistente a qualquer explicação fácil, mas que indica um caminho de interpretação. Esse caminho é difícil, porque leva à morte, mas deve ser trilhado. O pai está doente e pede, ainda que não queira e não fale – é exigido –, que o filho morra também, de algum modo. Talvez desistindo de um sonho.

A via que encontrei para poder enxergar a presença desse filme nessa mostra como lampejo e não como equívoco seria supor a consciência de que antes de qualquer agenciamento do desejo há o medo da solidão e da morte. Que a solução heterossexual hegemônica é apenas uma mediação, dentre outras, em face do mais democrático vazio.

Prefiro pensar, e não por pudor, pelo contrário, por falta de, que o amor entre o pai e o filho salta tanto aos nossos olhos através dos olhares deles, hipnotizados uns pelos outros (e não apenas pai e filho, mas todos os personagens), salta tanto na pele exposta de ambos, quer os deseje ou não, quer deseje o beijo que nunca virá ou sinta-se aliviado, prefiro pensar que esse amor tem de aparecer de forma tão encarnada justamente porque essa seja talvez a forma mais terna de enganar a morte.

Logo após o pesadelo da cena inicial o filho tem outro sonho, acordado dessa vez. O pai lhe pergunta: “Eu estou lá?”

Contrastando com o calor da primeira cena, na última, vendo o pai de peito nu na neve – talvez símbolo da velhice no corpo imaginado, sempre o imaginado! –, o filho pergunta: “Onde você está?” Pois parece distante.

“Não muito longe”, ele diz, contudo.

“Eu estou lá?” Pergunta também. Eco daquela que lhe foi feita.

“Não”, respondem.

Estamos sozinhos. 

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