
Bendito silêncio é uma boa expressão para descrever o sentimento que me despertam os filmes dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne.
E não é apenas a ausência de trilha sonora a causa dessa benção e desse alívio. A ausência desta é parte integrante, apenas, de algo maior: a atitude de respeito perante a obra e perante o espectador.
Em A Criança (2005), por exemplo, assistimos a Bruno (Jérémie Renier), morador de rua, autor e mentor de pequenos furtos, jovem pai, decidir vender o próprio filho recém-nascido às mesmas pessoas a quem vende as joias alheias.
Em nenhum momento surge uma música perturbadora, ou de suspense. Os Dardenne já criaram a situação mais perturbadora, não precisam liberar, com a música, um estímulo condicionado ao sentimento de perturbação. Não precisam dessa artificialidade, desse estímulo alheio à cena e talhado na gente durante décadas de filmes ruins.
Da mesma forma, frente à revolta da mãe, à iminente denúncia e envolvimento policial, quando precisa reaver o filho, não comparece nenhuma música emocionante ou, depois, de alívio. A emoção e o alívio já estão lá. Eles não precisam apelar para gatilhos sentimentais.
Respeito é isso. Eles confiam no trabalho que fizeram e confiam na inteligência do público.
O cinema ralé – os exemplos não faltam, nem são dignos de menção – foi expropriado dessas duas formas de confiança e de respeito.
No primeiro caso – o respeito à obra, ao objeto, ao material –, a ligeireza do modo de produção em série impede o trato com o especifico. À mocinha, ao herói ou ao vilão enlatados não pode ocorrer nada de particular. À mocinha acontece o que acontece às mocinhas, ao vilão o que acontece aos vilões, e assim por diante. A nada e a ninguém é permitido ser algo ou alguém além da categoria que representam. Este é um dos princípios da cultura de massa, da Indústria Cultural – diagnóstico já bem antigo, no bom sentido.
Então por que teriam trabalho? Isto é, por que deveria o escritor idealizar uma personagem e toda a contradição inerente às ações das pessoas reais em situações reais – ainda que impossíveis e imaginárias? Por que deveria o diretor ter cuidado nas escolhas? Por que o bom ator incorporaria esse clichê venenoso?
Não vale a pena, e eles sabem disso. Esse lixo é tratado tal qual merece, com cuidado o bastante para ser vendável, nem uma gota de espírito desperdiçado, nem um centavo a mais. E o compositor, a trilha sonora, entra para aparar as arestas de subjetividade que insistirem em aparecer.
É uma espécie de saturação: joga-se uma música de vilão, em cima de um vilão, fazendo coisas de vilão, e não restará dúvida se tratar de uma autêntica representação da maldade. Não importa que o ator, por exemplo, naquele instante, tenha sentido compaixão pela personagem, ao compreendê-la, de algum modo, e uma inflexão de voz inesperada, a hesitação de um gesto, abra as portas proibidas de outro mundo possível.
A segunda forma de falta de respeito – para com o público – vem junto no pacote. Se nem quem fez o filme pode sentir algo de substancial, não será você quem conseguirá atribuir vida às marionetes.
Teve pena do vilão? Azar! A gravidade da música diz que ele é mau. Você acha duvidosa a ação do herói? Talvez sua coragem esconda uma injustiça? Azar de novo! O crescendo pede que torça por ele. E a mocinha? Deus! Isso é uma mulher ou é uma imagem idealizada e machista de mulher? Quem se importa?! Está na hora de chorar com ela, pobrezinha, tão sonhadora!
E o cinema 3D, a vedete, só faz isso de forma ainda mais desagradável. Tente olhar para o que quer que seja que não tenham escolhido antes por você, como foco da sua atenção – necessário para que se produza o efeito –, e receba em troca uma bela dor de cabeça.
Com os Dardenne isso não acontece. O cuidado que eles demonstram dá gosto de ver. Até há personagens clichê, vários deles. Mas não por pobreza de espírito, e sim por coerência com a estética realista desenvolvida. Afinal, nosso mundo é feito de pessoas que não se diferenciam muito de clichês.
T. W. Adorno, imaginando as críticas que poderia receber pela Personalidade Autoritária – pesquisa na qual teve participação essencial e que se utilizava de uma tipologia – defende-se da seguinte forma: num mundo onde os homens foram tipificados, a tipologia é uma forma legítima de investigação, importante inclusive para que seja possível a sua superação. Não é negando teoricamente a tipologia que se acaba com a tipificação instalada.
Assim também, nos filmes dos Dardenne, como O Silêncio de Lorna (2008), por exemplo, os mafiosos são tão típicos quanto no cinema ralé. Escolha, porém, absolutamente responsável.
Não será nas personagens mafiosas que os autores depositaram sua força. É em Lorna (Arta Dobroshi) e Claudy (novamente Jérémie Renier) que a subjetividade dá as caras, ainda que apenas em resultado da situação extremada.
Lorna, albanesa casada com o belga Claudy, tendo pago por sua nacionalidade, vê-se num terrível dilema moral, bem ao gosto dos Dardenne. Seus amigos mafiosos pretendem matar, alegando overdose, o drogado Claudy, e assim Lorna poderá, para benefício dos sobreviventes, então, com maior rapidez e menores riscos, vender a nacionalidade belga recém adquirida a um russo.
Se em algum momento ela esteve convencida da insignificância desse assassinato, mascarado de eutanásia – afinal, encontramos Renier em pele e osso (prova do profundo envolvimento do ator com o projeto), logo nas primeiras cenas fica claro que não será tranqüilo participar na morte de um ser humano ainda muito vivo, por sinal. Que pede ajuda a ela, sua esposa de mentira, mas sua esposa. E pior, que num ímpeto de vontade se recupera.
De onde estamos também não é fácil entender Lorna. Por que só então se preocupou? Tê-lo-ia deixado morrer em outra circunstância? E Claudy, repulsivo e apaixonante, como prever para onde caminha? Pois não nos é dado o tom. Nenhuma música tosca vem socorrer no julgamento.
Com exceção da música cenográfica – aquela que os próprios personagens ouvem na cena– é em Lorna a primeira vez em que os irmãos Dardenne inserem uma trilha, na pós-produção. Uma única música, segundos antes de acabar o filme e estendendo-se durante os créditos. Rendição, poder-se-ia pensar, à ralé? Não se pode com eles, junte-se a eles?
Penso que não. A ausência de trilha, sendo um indicativo do respeito, tão pouco é condição necessária para o respeito. Quantos filmes grandiosos não têm a trilha como elemento imprescindível da composição? Importante aqui é notar que sua presença surge plena de significado, não mera saturação.
Devo admitir que o final escolhido não me agrada. Não tendo conseguido salvar Claudy, Lorna se refugia num delírio. Absolutamente justificável até aí. Contudo, a forma como se dá – Lorna conversando com o próprio filho imaginário em sua barriga – deixa a desejar em termos de sutileza, destoando do resto do filme e do conjunto da obra.
Esse ruído, entretanto, não tem nada a ver com a entrada do segundo movimento da Sonata nº 32, op. 111 de Beethoven. Como deve ser, ela instiga mais do que confirma. E mesmo agora, ainda me pergunto a seu respeito. Por que quebrar o silêncio justamente com a última sonata para piano escrita por ele?
Assista a um só filme dos Dardenne e saberá que está mal acostumado caso não saiba o que sentir – e sentir falta.


