Rafael Baioni

11 de junho de 2010
19:44

1 × 1 = 2, 1 ÷ 2 = 1

Antoine Doinel é o traço de continuidade que o cinema descontínuo de Godard não poderia aceitar

Antoine Doinel

Essa é a equação do filme de Emmanuel Laurent, Les Deux de la Vague (2008) ou Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague, no Brasil.  Os dois grandes cinéfilos, críticos e cineastas mesmo juntos nunca estiveram. E o pobre privilegiado Jean-Pierre Léaud, a cara e o corpo do movimento, entre um e outro, tinha o desafio de ser ele mesmo.  

O jovem Truffaut veio de uma infância pobre e difícil. Godard, o privilegiado, de família rica e boas escolas.  Colegas no Cahiers du Cinéma, amigos na vida, companheiros nos primeiros filmes e no quebrar da onda de 68, nada disso poderia unir num mesmo romance de formação dois protagonistas tão díspares.

No romance de Goethe, Wilhelm Meister espera conseguir através do teatro a formação do aristocrata que ele, burguês, já não pode ter. A diferença é que Truffaut é o Wilhelm sonhador, que espera conseguir um lugar entre os nobres do cinema provando o seu valor da sua arte. Godard, por sua vez, já nasceu um Wilhelm desiludido com a nobre burguesia, esses porcos, e a ele só restou, portanto, o isolamento.

Não é à toa que desde seu primeiro longa, Os Incompreendidos (1959), Truffaut elegera Jean-Pierre Léaud para viver seu Antoine Doinel, personagem que retornará em mais quatro filmes, no corpo do mesmo Léaud. Permanência sem precedentes, o esforço necessário para manter vivo esse alter ego seja talvez em algo semelhante ao esforço de Proust. Walter Benjamin nos diz que os oito volumes de Em Busca do Tempo Perdido nos dão “ideia das medidas necessárias à restauração da figura do narrador para a atualidade”.

No filme de Laurent vemos uma entrevista com Truffaut: “Tudo que não é autobiográfico é biográfico”, nos diz a respeito do longa de 59, grande vencedor do Festival de Cannes daquele ano. “Nada é inventado”, acrescenta. Nesse sentido, podemos dizer então que Truffaut tenta contar sua história, desde a infância pobre, o internato, passando, em outros filmes, pela descoberta do sexo, o exército, a deserção, o casamento, porque quer juntar os cacos da experiência possível.

Talvez por isso, para negar maniacamente a angústia sentida frente à impossibilidade da continuidade do sujeito em nossa época, Truffaut tenha feito Léaud repetir Antoine Doinel, Antoine Doinel, Antoine Doinel, Antoine Doinel ainda tantas outras vezes frente ao espelho em Beijos Proibidos (1968).

Godard não. Em Godard, o vaso que se partira, se esfacelara definitivamente. Ele até tentou, talvez inspirado pela paixão do amigo, um pouco de cola, um último sopro de identidade em Acossado (1960), cujo argumento, aliás, é de Truffaut.

Mas o alter, como o ego, não parou em pé como se devia. Jean-Paul Belmondo, até apareceu em outros filmes, antes e depois. Porém, diferentemente de Léaud, o menino que vimos crescer, se transformar, inclusive no rebelde que Godard queria dele, em A Chinesa (1967); Belmondo, estereotipado, mantinha a identidade pagando com a paralisação do presente, como a foto do jornal em que foi inspirado seu personagem, continuou constrangedoramente estático, apenas amarelecendo.

O grande mérito de Godard, justiça seja feita, ter transposto o conteúdo subjetivo esfacelado da modernidade para a forma cinematográfica, é também nossa maior fraqueza. Querer ser Doinel nesse belmundo é respirar por aparelhos. Desistir de ser Doinel, por outro lado, é construir os mais engenhosos aparelhos de respirar, tendo por base aulas de anatomia, e apostar que as peças tomarão vida.

Eu prefiro ter fé nesse moribundo. Estar morrendo ainda é estar vivo. E morrendo se vive uma vida inteira.

Para ir mais longe:

- Walter Benjamin: Ler Charles Baudelaire, um Lírico no Auge do Capitalismo, pela editora Brasiliense.

- Os anos de Aprendizado de Wilhelm Meister, de Goethe, pela Editora 34.

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