Rafael Baioni

29 de maio de 2010
1:20

A rocha e o filho

O belíssimo longa de estréia de Esmir Filho ajuda a pensar o político no cinema contemporâneo quando comparado a Glauber Rocha

Os Famosos e os Duendes da Morte (2009)

Talento ou acaso, Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), de Esmir Filho, talvez seja um dos melhores filmes brasileiros dentre os que vi desde Glauber Rocha.

É claro que soa infame comparar o longa de estréia de um filho da burguesia globalizada com uma rocha da revolução cultural terceiro-mundista. Porém, em se tratando de um filme que atraiu apenas pouco mais de duas mil pessoas ao cinema – e quantos menos se darão ao trabalho de ler algo a respeito –, comparo com a tranqüilidade do Adorno mítico que lança ensaios ao mar, dentro de garrafas, ou de quem fala para o espelho que é um desconhecido na internet.

Podemos começar pelos títulos. O filme de Esmir Filho não tem a pretensão intelectual e política de Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) ou de Terra em Transe (1967). Os Famosos e os Duendes da Morte – antes o título do livro de Ismael Caneppele, terminado em concomitância com a produção do filme – é um título tão intelectual e político quanto uma viagem de baseado.  Note que ambos os nomes arrancados da rocha falam da “Terra”, ainda que a do sol. Trata-se de filmes-tese, diagnósticos sobre nada menos que o mundo. Glauber falava de subdesenvolvimento, colonização, imperialismo, periferia, política e revolução, queria um cinema revolucionário épico e didático – meio a la Brecht, só que um pouco atrasado para 65, data entre os dois grandes filmes e de escrita do famoso manifesto intitulado Eztetyka da fome. Esmir talvez mais condizente com seu tempo, para o bem e para o mal, mostra que o subdesenvolvimento é aqui, no lugar de quem fala, onde quer que seja, está no eu que digita existencialismos para estranhos, em qualquer parte do mundo, que precisa de um baseado para rir e de um perigo para sentir que está vivo; e a Terra onde se passa fome hoje – e já na época de Glauber – é a da onipresente pobreza dos predicados, quer em inglês, russo, francês ou português.  Os famosos são Deus e o diabo, e Deus e o diabo já eram famosos, não é novidade – do templo de Osíris à multimídia –, a diferença é que hoje as divindades interferem em nossas vidas com tanta força quanto os duendes e com tanto benefício quanto a morte.  O non-sense do título faz parte do sentido da vida sem sentido.

Por outro lado, não podemos dispensar o acaso, afinal, como já nos ensinaram Adorno e Merleau-Ponty, a razão que dispensa a desrazão peca por erro de cálculo. Por isso penso que Glauber é tão bom talvez por acaso, calculado e não calculado.

Se pretendia realizar um cinema épico e didático seu conceito de didático era mais revolucionário que o seu cinema, sem ironia. Se a rocha tinha uma agenda brecthiana, graças a deus e ao diabo desse Brecht vertia Artaud. Seu épico, muito mais fértil de mito – isto é, muito menos inutilmente esterilizado do mito que jaz sob todo épico – ia mais além do esclarecimento das massas, ele mesmo fruto da razão dominadora, ao qual nem Brecht conseguiu reduzir sua própria sensibilidade e sua obra.

Em 1971, poucos anos depois de Deus e o Diabo e Terra em Transe, em Eztetyka do sonho, outro texto, Glauber mostra que aprendeu na teoria a mesma lição que seus filmes já ensinavam na prática, que Merleau-Ponty já pronunciava no rádio em 1948 – talvez sua forma mais didática – e que Adorno não chegou a ver impressa – formulação de maior vigor épico, talvez – no ano de 1970:

“As vanguardas do pensamento não podem mais se dar ao sucesso inútil de responder à razão opressiva com a razão revolucionária. A revolução é a anti-razão que comunica as tensões e rebeliões do mais irracional de todos os fenômenos que é a pobreza [...] Hoje recuso falar em qualquer estética. A plena vivência não pode se sujeitar a conceitos filosóficos. Arte revolucionária deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não mais suporte viver nesta realidade absurda”.

Não se engane com o tom das negativas. Glauber apenas emula não dar, em comparação com os outros dois, o pequeno passo de autoconsciência que é saber que a desrazão também é razão, que se recusar a falar em estética é falar em estética e que a “plena vivência” já é um conceito filosófico. Seu imenso esforço de escrita e realização cinematográfica é um testemunho da poder da razão e do preço que é preciso pagar para ser racional ao limite, e por execelência, num mundo irracional.

A liberdade dada aos grandes atores na sua direção, por exemplo, é uma aposta alta no acaso que é o outro, a quem Glauber emprestou a voz, sabendo que tinham a sua própria. Imagine (um) Terra em Transe sem (um) Paulo Autran, e (um) Deus e o Diabo sem (um) Othon Bastos. O cinema, ele mesmo é um golpe desferido contra a individualidade, todo mundo está careca de saber – só se faz um filme sozinho por milagre. Escolher dentre o que havia de mais forte na atuação teatral de sua época foi uma forma – dentre tantas, consciente ou não – de controlar o incontrolável sem querer eliminá-lo.

Com Os famosos, não aconteceu diferente. Só não sei ainda se mais pelo acaso não-calculado ou pelo talento em calculá-lo. Os atores locais e/ou amadores selecionados por Esmir não tem a força construtiva de um ator como Autran ou Bastos, nem brinquemos com o assunto. Porém, enquanto seleção de exemplares típicos da individualidade moderna – e a própria possibilidade de que essa individualidade tenha exemplares típicos diz muito sobre ela – o trabalho de Esmir é excelente. O que falta na construção de ator é compensado no cuidado da composição. Lembre, por exemplo, que as fotos da garota do filme (Tuane Eggers) já existiam e estavam na internet, postadas pela atriz antes mesmo de saber que seria a atriz da produção ou sequer atriz, talvez. O acaso, calculado ou não, nesse caso, está na voz que Esmir dá aos adolescentes reais, que tem blogs, fotologs, escrevem músicas e livros.

Sim, pois o mesmo pode ser dito quanto à trilha sonora. Em Deus e o Diabo, ninguém menos que Villa-Lobos, em Os famosos, outro sincero desconhecido (Nelo Johann, de 25 anos). E o roteiro, então?

Glauber, como diz Ivana Bentes, passou mais tempo sobre a máquina de escrever do que atrás de uma câmera. Escrever seu próprio roteiro era uma conseqüência lógica do seu conceito de cinema de autor e seu projeto de revolução. Já Esmir, segundo boatos – pelo menos foi assim que a mim chegou – pretendia produzir outro filme, mais “adulto”, e foi instado a que se mantivesse no nicho que o consagrou, o de filmes “adolescentes”, como seus curtas Tapa na Pantera (2006) – sucesso absoluto na internet – e Alguma Coisa Assim (2006) – premiado em Cannes. Se isso for verdade, sua parceria com Ismael Caneppele foi, de certo modo, acidental. Por outro lado, a partir de certo momento, fruto de uma escolha, acaso calculado. Esse Ismael que tinha um manuscrito de uma história sobre o horror e a esperança adolescente frente à fome da terra, que inclui o interior do Rio Grande do Sul, sim, onde também tinha um amigo músico e onde moram atores tais e quais. Bem, calculado ou não, fato é que Os famosos está repleto de forte material expressivo e é fruto de um excelente trabalho de composição.

Trocando em miúdos: frente ao diagnóstico de mundo de Glauber e seu projeto de retomada do sujeito, em plena periferia do capitalismo, nada melhor do que o poder do trabalho construtivo dele mesmo, de Autran e Bastos (assim como a escolha de Villa-Lobos); já frente ao diagnóstico de mundo em Esmir e sua falta de projeto (ou constatação da impossibilidade de um) faz muito bem a escolha e a composição da melhor expressão entre os desconhecidos.

Como já disse, fazia tempo que não via algo que me agradava tanto. O maior defeito do filme, precisa ser dito, é o virtuosismo das imagens com que Esmir insiste em nos mostrar que, para ele, mais importante do que o poder desta imagem neste filme talvez seja mostrar que sabe filmar. Já tinha me provado isso em Alguma Coisa Assim, cheio de imagens exageradamente belas e roteiro tão vazio quanto as vidas, a despeito das palmas e do ouro. Câmara virtuosa e vida adolescente – sonhadora e vazia aqui, em Cannes e nos States – fico com Gus Van Sant, obrigado.  Acaso ou talento, mais uma vez, o diferencial de Os Famosos, a força de sua particularidade, talvez seja a alma de Ismael, Tuane, Nelo, Henrique, Samuel e outros emprestada às imagens, talvez alma surgida do encontro, ou talvez, quem sabe, ela já estivesse sempre lá, esperando, escondida por detrás do fetiche da técnica do diretor. Os próximos filmes – se existirem, depois do absoluto fracasso de público, a ponto de Esmir ter de pedir, boatos novamente, para a destribuidora recolocar o filme em projeção – nos dirão. Espero ansiosamente.

Ainda que me decepcione, ansiar por algo em cinema, hoje, já é muito.

Referências:

- Glauber Rocha: 1) A trilogia dos livros críticos de Glauber (Revisão do Cinema Brasileiro, Revolução do Cinema Novo e O Século do Cinema, com brilhantes introduções escritas por Ismail Xavier, publicadas pela Cosac Naify. 2) A a introdução escrita por Ivana Bentes à compilação de cartas de Glauber publicadas pela Companhia das Letras em Glauber Rocha: Cartas ao Mundo. 3) No site tempoglaber pode-se encontrar os dois textos mencionados: Eztetyka da Fome e Eztetyka do Sonho.

- Esmir Filho: Entrevista, por Bernard Payen, em junho de 2009, encontrada no Pressbook disponível no site oficial do filme.

- Merleau-Ponty: Conversas – 1948, livro que reúne sete conferências que Mearleu-Ponty proferiu pelo rádio encomendadas pela Rádio Nacional Francesa, com publicação nacional pela Martins Fontes.

- T. W. Adorno: Teoria Estética, obra não terminada e de publicação póstuma, com edição em português de Portugal pela Edições 70.

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