Soa como
Uma trilha sonora de um filme da Sofia Coppola.
Desconstruindo Tom Waits
Confesso que quando ouvi dizer que Scarlett Johansson ia lançar um álbum, logo me veio à mente a cena de O Casamento Do Meu Melhor Amigo, em que Cameron Diaz canta de uma forma genialmente desafinada I Just Don’t Know What To Do With Myself. Mas Scarlett Johansson, blasée do jeito que é, não iria se rebaixar e fazer a babacona desafinando Tom Waits, o tema de Anywhere I Lay My Head.
Enfim, sobre covers, eu tenho uma teoria de que são dois os caminhos que pode seguir o artista que quer fazer uma versão de outro.
- Opta-se por uma cópia fiel do artista original, opção geralmente escolhida por gente que tem vozeirão copiando alguém com um vozeirão;
- Desconstrói-se a música por completo, como fez o Cake na versão de I Will Survive, da Whitney Houston ou a própria ao fazer uma versão brega-diva do sertanejo I Will Always Love You.
Scarlett não tem vozeirão (de diva pelo menos). Mais difícil ainda seria ela imitar a voz grossa e levemente sombria de Waits. Desconstruir seria a saída, para fazer versões de um artista difícil de copiar por sua originalidade. E foi o que ela – ou melhor, o produtor Dave Sitek – fez. O folk bizarro de Waits se transformou em uma coisa cheia de texturinhas e barulhinhos bem no estilo Air de ser.
Muito sintetizador e ruídos bucólicos de passarinhos, cachoeiras e outras coisas do gênero dão lugar ao violão puro do compositor. A voz de Scarlett muda a cada música, de tantos filtros e efeitos usados. Mais bizarra ainda é a participação quase velada de David Bowie em Fannin’ Street e Falling Down – se você não sabe que Bowie está ali, mal dá para perceber.
E o disco fica nisso, na barreira do sublime e do esquisito, o tempo todo. Tem sua validade: é muito bem produzido, não se vende fácil, encontra-se sutilezas a cada audição. Mas tem problemas: o primeiro é que é um disco difícil de ter uma continuação: Scarlett vai ter que trabalhar muito (ou procurar quem trabalhe por ela) para conseguir ter um segundo álbum diferente – porque nesse estilo vai ser difícil continuar sem cansar – mas ao mesmo tempo que tenha coerência com seu trabalho. Depois, é um álbum de difícil execução ao vivo. Mas tudo bem: Scarlett já disse que não vai fazer tour.
Fica a dica: o disco vale a pena. Não é Juliette Lewis tentando ser legal nem Lindsay Lohan cantando pop genérico. Ela não precisa de holofotes, Hollywood já faz isso bem por ela. Diria que das atrizes-que-viraram-cantoras, Scarlett fez o melhor trabalho. Ou repetindo a piada: foi a que teve a melhor equipe por trás.
Vale a pena ouvir
Falling Down: Com participação imperceptível de Bowie, aqui é onde a voz dela mais aparece. E o fundo é muito bom com aquele pianinho agudo.
Song For Jo: A única música original do disco, composta pela atriz-cantor e Sitek. Parece trilha de filme mesmo.
I Don't Want To Grow Up: Batidinha anos 80 com vocais sintetizados dialogam perfeitamente com a letra divertida.
Who Are You: Aqui é onde a voz de Scarlett está mais bizarra. Supera a de Waits no original.
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