Algum pensador por aí alguma vez disse que a pessoa é a cultura que ela carrega. E música é cultura certo? Por isso quando os japoneses todo curiosos vêm me perguntar sobre a música brasileira (depois de perguntar sobre o clima óbvio, isso é bem japonês – mas clima é cultura? enfim) eu vejo que eu não escuto muita música brasileira a ponto de dizer com convicção: “isso é o puro creme da música brasileira”.
Eles perguntam do samba, da bossa nova (que aqui é um sucesso inexplicável), da salsa e de qualquer coisa rebolativa. Ah sim, alguns se lembram da lambada, porque o Kaoma chegou salsa.
Mas eles querem mais: eles querem nomes. Quem são os grandes nomes da música nacional contemporânea, no sentido literal da palavra, da música que a gente escuta e vai ver ao vivo e ouve na rádio?
Isso porque tem sempre os clássicos: Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Tom Jobim, Elis Regina e uma lista imensa que não teria fim. Mas essa lista peca porque todos esses clássicos não têm na atualidade uma música que os represente mais do que representaria as antigas. Voltemos então ao nosso rádio de todo dia.
Pensei em algum momento na Ivete Sangalo. Ela é poderosa, seja no palco ou seja nos números – de vendas, de público, de hits. Eu particularmente gosto dela, fui a dois shows divertidíssimos, iria em mais ene deles. Ela é simpática, aquilo que chamamos de “bem brasileira”: emotiva, sorridente, apaixonada, vibrante. E a música é boa, vai. Ou vai dizer que você nunca sentiu pelo menos uma vontadezinha de gritar “poeiraaa” em algum momento?
Acontece que aí entra um fator pessoal: eu não quero falar de nada rebolativo. A Ivete não é rebolativa, ou seja, ninguém se lembra dela porque ela rebola na boquinha da garrafa ou porque ela segura o tchan – no máximo a gente grita “Ivete mostra as coxas”. Mas ao explicar de onde ela veio, não tem como fugir do maldito termo axé. Nada contra, tem teve seu valor em algum momento. Mas poxa… isso vai representar nosso país para pobres japoneses.
Nosso rock anda falido, isso é quase um fato. Vale mais a pena comentar o rock argentino do que o nosso. De sucesso internacional, temos sempre o CSS – mas você não sente um clima de coisa típica ouvindo Alala – e Bonde Do Rolê – mas por que falar de uma banda que é uma adaptação de um ritmo, no caso o funk carioca? melhor falar logo da Gaiola Das Popozudas logo de uma vez.
Depois de falar tudo isso, venho logo ao ponto central da conversa, o que gerou este post. Ouvindo minhas músicas em modo aleatório, acabei caindo na Marisa Monte. Era Diariamente. Uma música simples, mas de uma beleza sem igual.
Num momento epifânico, me veio à mente de que Marisa seria um ótimo nome para citar aos japas. Ela tem a coisa da brasilidade, misturando samba, rock e sons regionais (odeio esse termo, mas não me veio outro). Não é um sucesso isolado, teve e tem uma carreira consistente, enche casas de shows e vende que é uma beleza, mesmo na audácia/pachorra/ousadia de lançar dois discos. É dona de seu catálogo, não depende de gravadoras.
Musicalmente falando, além da mistura toda, tem uma voz bonita e treinada, produção quase que impecável em seus discos. E mesmo assim não é hermética, é palatável a um bom público, dada a leveza de suas músicas e da intersecção de vários ritmos que levam a pessoas de diferentes gostos se encontrarem sem querer em Marisa Monte . Ela rende alguns hits (quem nunca cantarolou “amor, I love you” por aí?), aparece na MTV, é lembrada por sua música e não por seu sucesso, vida amorosa, partes ressaltadas do corpo ou algo do tipo.
E o melhor – já fez show em Tokyo, o que dá toda uma referência. Vale dizer que, especificamente aos japoneses, a proximidade de peso em relação à bossa nova, faria com que eles ouvissem numa boa os discos de Marisa.
Enfim, chega, babei um ovo para ela agora. Só espero que os japas gostem.
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