
A Child Is Waiting (1963), lançado no Brasil como Minha Esperança É Você (que ganha agora versão em dvd), é um exemplo paradigmático das dificuldades e contradições que se apresentam ao se tentar uma conciliação entre cinema independente (de autor) e indústria cinematográfica (em especial, o cinema hollywoodiano).
Isso porque seu diretor, John Cassavetes (1929-1989), considerado o pai do cinema independente norte-americano, após ter sido aclamado no Festival de Veneza de 1959, com seu primeiro filme Sombras (1959, Shadowns, no original, de produção independente e sem ter tido sequer distribuição nos EUA) é convidado pela nada boba Hollywood — tendo em vista o prestígio que ganhou — para trabalhar em duas de suas produções: A Canção da Esperança (1961, Too Late Blues, o título original) e o anteriormente citado Minha Esperança é Você, o qual analisaremos aqui. Não posso evitar a possibilidade deixada aberta de uma ironia — só possível a partir dos títulos em português: haja esperança!
Os problemas enfrentados nesse último filme, particularmente seu embate com o produtor, Stanley Kramer, fizeram com que, desiludido, Cassavetes retornasse às produções independentes, de extrema relevância. Essa experiência, porém, pode nos ensinar algo de forma tão contundente ou mais que seus filmes autorais: a contradição entre indústria e subjetividade, entre a mera reprodução e a possibilidade do Novo.
“A criança à espera” é ele mesmo, o filme, uma criança dividida entre duas mães, Cassavetes e Kramer — este, típico representante dos interesses da Indústria —, muito semelhante à criança que aguarda o julgamento do rei Salomão.
Na história bíblica, este ameaça cortar a criança ao meio para que a verdadeira mãe, que prefere abdicar do filho a tê-lo cortado, seja reconhecida. O filme de Cassavetes não teve igual sorte. Não havia um sábio rei Salomão gerindo os estúdios, e cada mãe puxou para si o que pôde. O resultado, como se pode conferir, são os pedaços.
O enredo do filme trata basicamente da chegada de Jean Hansen (Judy Garland) — musicista frustrada, solteira, sem filhos, a procura de um sentido na vida (lembre-se de que estamos no começo da década de 60) — a uma instituição que cuida de crianças com deficiência, sob o comando do psicólogo Dr. Clark (Burt Lancaster). Lá ela se depara com Reuben, um menino provavelmente autista (o que não é dito no filme), que desperta em Jean forte empatia e consequente aproximação. Jean se envolve com Reuben a ponto de questionar os métodos do Dr. Clark e passar por cima de sua autoridade, envolvendo-se com a família do garoto e sua história de abandono; não tão simples e maquiavélica quanto ela supôs a princípio.
É a partir disso que o filme começa a aparecer aos pedaços. De um lado temos a visão de Cassavetes, para quem a deficiência é vista apenas como mais uma particularidade individual do que como um problema. O problema, para ele, está na sociedade preconceituosa e seus parâmetros de normalidade (leia-se: produtividade), não nas crianças. Visão muito afinada, importante frisar, com as discussões mais atuais em torno do tema, cinquenta anos depois.
Essa intenção fica bastante evidente na cena em que Dr. Clark e Sr. Goodman (seu assistente) têm de defender a instituição para o Sr. Holland e o Dr. Lombardi, representantes do governo e de uma visão de mundo tecnicista, preocupados com o dinheiro investido e interessados nos números do progresso. Dr. Lombardi chega até mesmo a confessar que prefere o investimento nos excepcionalmente inteligentes, num discurso quase fascista, neodarwinista, de sobrevivência dos mais aptos. A defesa de Dr. Clark e Sr. Goodman, relativizam o conceito de normalidade — “O que é normal? O normal é relativo. Se vivêssemos num mundo de Einsteins, que QI teríamos? — e vão contra a ideia de que o custo dessas crianças para o Estado fosse oneroso (na época $2.700). “É bastante”, diz Dr. Clark, “mas não mais do que é gasto em rodovias, monumentos, parques…”
Mais interessante ainda porém, na minha opinião, é a cena em que o Sr. Goodman conversa com o pai de Reuben (que até o momento rejeitava o filho). Sr. Goodman também tem uma filha com deficiência e tenta, no diálogo, por duas vezes desfazer a distância entre essas crianças e o resto das pessoas — que para o pai de Reuben parece insuperável. Questionado por este sobre o que seria melhor para essas crianças, Goodman diz que o melhor é que vivam como conseguirem, “como o resto de nós”. Depois, quando fala que Reuben pode aprender a lavar pratos e o pai deste pergunta se esse é o máximo que ele pode chegar, Goodman responde: “Me pergunto: o quanto mais fazemos o resto de nós?”.
Nessa fala de Goodman fica implícita, a meu ver, até mesmo uma crítica ao modo de produção capitalista — ou seja, Cassavetes impondo-se no seio mesmo do capitalismo — ao questionar, com essa frase, o próprio sentido do trabalho e do papel relegado ao sujeito moderno. Mas não vamos entrar (diretamente) nesse mérito aqui.
A outra posição, a de Kramer, o produtor — posição igual ao senso comum esclarecido da sociedade americana no início dos anos 60, que só consegue ser melhor que aquela parte desse senso comum que, como vimos, recaía no neodarwinismo tecnicista — acreditava que as crianças com deficiência estão melhores com as pessoas do seu próprio tipo. Esta posição, aumenta a distância entre as crianças com deficiência e o resto da população, em franca oposição à posição anterior. Ela está presente em cenas como aquela em que Dr. Clark tenta convencer Jean do quão traumático seria para Reuben estar com crianças normais e no próprio final do filme, em que a manutenção de Reuben na instituição e sua adaptação a ela são encenadas enquanto happy ending.
Veja o seguinte trecho de um entrevista concedida por Cassavetes sobre a diferença entre os “dois filmes”:
“A diferença entre as duas versões é que o filme do Stanley fala que crianças com retardo pertencem a instituições e o filme que eu filmei diz que crianças com retardo são melhores em si mesmas, do jeito que são, do que supõem os adultos saudáveis. A filosofia do filme dele foi que crianças com retardo são isoladas e sozinhas e portanto deveriam estar em instituições com outros iguais a elas. Meu filme falava que crianças com retardo poderiam estar em qualquer lugar, em qualquer tempo, e o problema é a nossa estupidez, o problema é mais nosso que das crianças. O ponto do filme original era que não havia culpa, que não havia nada de errado com essas crianças exceto que sua mentalidade era mais lenta.” (tradução nossa)
Ou seja, Cassavetes estava muito à frente de seu tempo — em sintonia com tantos outros pensadores de sua época, também extemporâneos — a respeito de um tema de monstruosa importância: a igualdade social real, que respeita a diferença. Para se ter um ideia, o debate sobre a especificidade de cada criança e o questionamento da real necessidade da educação especial só ganha vulto na década de 70, com a Lei Pública 94.142 de 1975, que cria a Educação Inclusiva nos EUA, e que sofre forte resistência até hoje, inclusive no Brasil.
Kramer, por outro lado, fez o filme bater na mesma velha e monótona tecla sentimental da superação individual — lixo filosófico que tem como consequência quase sempre a adaptação, como foi o caso de Reuben.
Referências:
- Sobre a história da Educação Especial nos EUA ver: TOMLINSON, S. A Sociology of Special Education. Routledge and Kegan Paul Editora, Londres, 1986.
- A entrevista com Cassavetes pode ser encontrada no Wikipédia, em inglês, no verbete: A Child is Waiting.






