 COLDPLAY 27fev2007 @ Via Funchal, SP
  
Com o entusiasmo habitual, a banda de Chris Martin toca sucessos, não inventa, mas deixa boa impressão
“Como assim? Um show de rock sem pista??”, pensei eu ao comprar o ingresso há três meses. Para mim, o local ideal para se ver, não só o Coldplay, mas qualquer outra banda de rock, é no meio do povo, que normalmente se aproxima mais e mais do palco a cada música. Ok, é uma escolha da própria banda. Segundo soube, eles preferem esse tom mais intimista, teatral e “organizado”. Porém, o terceiro adjetivo teimava em triunfar. Os seguranças sofreram para tirar intrusos de fileiras mais adiantadas.
Após a calmaria que reinou durante os 30 minutos de show de abertura da banda Papas Na Língua, – talvez meia dúzia de pessoas resolveram levantar no hit chiclete Eu Sei, tema da novela Páginas Da Vida – o público, sobretudo as inúmeras representantes do sexo feminino, já de pé, se amontoava e gritava eufórico o quase início do show.
Minutos antes da banda invadir o palco do apertado Via Funchal, organizadores da turnê desfilavam com o set list para fotógrafos se deliciaram com o “furo”. Iluminado por flashes, o público via a folha sulfite que trazia as músicas que a banda tocaria logo mais. Muito parecida com a da noite anterior, a nova lista trazia, na última linha, uma dúvida: “shiver???”. Pelo jeito dependeria dos gritos da platéia, assim como aconteceu no primeiro show, para que o hit do primeiro disco do grupo fosse tocada.

Enquanto mais gritos histéricos comemoravam as canções que fariam parte do repertório, sobretudo Green Eyes, que já foi inclusive rechaçada pelos membros da banda em entrevistas anteriores, dizendo que não tocariam a música ao vivo, as luzes iam se apagando. Seguranças tentavam manter a ordem e expulsavam duas espertas meninas que pretendiam sentar-se na fileira da minha frente. Os instrumentos estavam à postos. O piano só esperava seu dono.
Como esperado, Square One, do mais recente álbum, X&Y, iniciou o espetáculo. Luzes psicodélicas que giravam sobre si mesmas roubavam alguns segundos de atenção da platéia que se esmagava e esticava os pescoços para ver melhor Chris Martin e sua trupe, todos, como de costume, vestidos elegantemente de preto. Politik veio no embalo. Música e letra fortes impulsionaram os gritos de Open Up Your Eyes.
Yellow foi a terceira da noite. Como tradição, bolas coloridas com papéis picados dentro delas caíram sobre o público. Muitos estouravam e guardavam o plástico furado como um souvenir. Os quase cinco minutos da mais conhecida canção da banda proporcionaram uma aura totalmente lúdica. A platéia, por alguns momentos, se esquecia completamente dos quatro moços do palco e pulavam o máximo que conseguia para tocar no balão e jogá-lo ainda mais alto.

Martin ainda não havia conversado com o público. Antes de tocar Speed Of Sound, quarta música do show, o vocalista inicia o papo com um “a segunda noite é sempre melhor”, em um bom e claro português. Até o fim do show, o já quase paulistano vocalista ainda arriscaria mais algumas muitas frases na língua dos brasileiros.
God Put A Smile Upon Your Face, What If, Sparks, Daylight e White Shadows seguiram o show. Desde o começo, já se pode ver um Martin empolgado. Por inúmeras vezes, ele se escondia em cantinhos do palco, rolava no show, pulava e dançava alucinadamente. “E aí, beleza?”, perguntava o moço ao público.
As luzes se apagam. Martin senta em frente ao piano. Talvez a música em que menos ouvi Martin. O coro era geral. The Scientist era a décima da noite. Em um momento, digamos assim, encantador do show, Chris reúne no cantinho esquerdo do palco seus companheiros de banda. Ali, apenas dois violões, uma gaita e as palmas de mais de duas mil pessoas davam o ritmo para Martin entoar a “fofa” Green Eyes.

Em Clocks, ele queria ao mesmo tempo saltitar pelo palco e continuar a tocar o piano. Ou ainda mostrar sua habilidade ao tocar o instrumento com uma mão só, regendo com a outra a cantoria do público.
Desde do início do show, entre uma música e outra, Shiver era gritada pelo público. Pelo jeito, Martin percebeu a falta de criatividade do público, fazendo o mesmo pedido que os outros fizeram no primeiro show.
Talk completou a apresentação antes do primeiro bis. O povo não parava de gritar e, mais empolgado do que nunca, não permitiu que um barulho ensurdecedor deixasse de ser ouvido enquanto a banda trocava de roupa e se refrescava no backstage.
Swallowed In The Sea, In My Place e Fix You formaram o novo bloco. Via-se um Martin super simpático, repetindo palavras em português, porém já não com o mesmo pique. Martin deixava trechos generosos para o público cantar. Talvez em seu último ímpeto de energia, em In My Place, o vocalista abandonou o palco, se juntou ao público do lado direito, obrigando todos a subir nas cadeiras para tentar achar onde estava ele.
O mistério mais sem graça do mundo finalmente chegou. Shiver foi berrada por milhares de pessoas. Mesmo não entendendo o porquê da fixação do público brasileiro pela música, ele e seu companheiro guitarrista atenderam aos pedidos. Pareceu aquele favor meio feito por caridade ou obrigação. Mas estava lá. O público saiu satisfeito. Shiver encerrava o segundo show da turnê de Coldplay pelo Brasil.
Longe de ser o melhor show de todos os tempos. Foi, sim, muito bem feito, bonito, por vezes emocionante. Entretanto, destacou-se o mais do mesmo. A partir de certo momento, parecia que Martin estava batendo cartão, claro, sem nunca perder a simpatia e o carisma. É por isso, que o rockstar mais bom moço da atualidade, mais uma vez, agrada uma platéia.
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