| Há exatamente 10 anos algo mudava no rock. Algo mudava na música. No dia 16 de junho de 1997, o Radiohead lançava seu terceiro álbum, o extraordinário Ok Computer, não só o melhor trabalho da banda até então, como também um dos melhores (se não o melhor) álbum da década de 90 e, por que não, um dos melhores de todos os tempos.
Thom Yorke, Jonny Greenwood, Colin Greenwood, Ed O’Brien e Phil Selway trazem definitivamente os sintetizadores para suas músicas. A banda soube aproveitar a frieza dos sons computadorizados, numa mistura entre o eletrônico e o rock progressivo, para criar canções que declaram o mundo de 1997: a mecanização, robotização, o mundo moderno e a melancolia misturada com agressividade. Tudo se interliga em Ok Computer .
Porém, falta ainda que uma pessoa leve os méritos – o quase sexto integrante da banda, o produtor Nigel Godrich.
Nigel já havia trabalhado em duas faixas do trabalho antecessor da banda, o The Bends, que foi produzido por John Leckie. E nas ausências do veterano produtor, Nigel mostrava à banda suas idéias e do que era capaz. “Enquanto John estava fora, ia a um casamento ou algo assim, nós aproveitávamos para fazer alguns b-sides. Era como se os pais estivessem fora e tudo mundo aproveitasse o tempo para se divertir e aprontar”, afirmou Nigel. E da “farra” saiu Black Star, uma das melhores músicas de The Bends. Além de Lucky, que mais tarde faria parte do lendário Ok Computer.
O produtor ainda continuou trabalhando com o Radiohead na produção de alguns b-sides como Talk Show Host, que faz parte da trilha sonora do filme Romeu e Julieta. Nesse momento, Nigel sabia que participaria do próximo álbum da banda.
Após maus momentos no estúdio em The Bends, a banda quis fazer o próximo trabalho por eles mesmos. Em um estúdio móvel, batizado de Canned Applause, no “meio do nada” , segundo Jonny. Não havia profissionais da gravadora, nem havia cara de estúdio de verdade, havia apenas o material necessário, a banda e alguns amigos para ajudar, entre eles Nigel Godrich, um cara até então não muito conhecido no meio e que era mais novo que qualquer um da banda, situação raríssima no meio musical.
Longe da cidade grande, o isolamento da banda permitiu que fizessem o trabalho de forma diferente, mais livre, tornando horas de trabalho mais espontâneas e flexíveis. Após finalizar quatro músicas no Canned Applause, em setembro de 1996, a banda se mudou para St. Catherine’s Court, uma mansão na pequena cidade de Bath, que já foi de propriedade da atriz Jane Seymour. Lá, eles gravaram o restante de Ok Computer. Enquanto a banda tocava no salão, Nigel Godrich gravava na biblioteca. Thom cantou Exit Music (For A Film) no hall de entrada com pesadas paredes de granito; Let Down foi gravada ao vivo às três da manhã no salão. Na época do natal, cerca de catorze músicas estavam finalizadas. A mixagem foi feita em Londres, durante janeiro e fevereiro de 1997.
Foi afastado do mundo que o Radiohead, com a ajuda de Nigel, conseguiu definir o som próprio da banda. Em Airbag, a música que abre o álbum, já se nota o dedo de Godrich, que consegue com uma profunda técnica produzir uma densa camada de sons.
Sintetizadores, guitarras, teclados, bateria, a voz ora asfixiante, ora melancólica, ora raivosa, ora desesperadora de Thom Yorke. Nigel consegue colocar tudo isso dentro de um saquinho, misturar de forma mágica e fazer brotar músicas únicas. Sempre é preciso alguém para fazer a criação do gênio vingar. Nigel Godrich fez o Radiohead virar Radiohead.
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