Seis pontos do Sónar SP 2012

Aside

Ryuichi Sakamoto e Alva Noto @ Sónar SP 2012 (Robson Bento/Getty Images LatAm)

Ryuichi Sakamoto e Alva Noto @ Sónar SP 2012 (Robson Bento/Getty Images LatAm)

  1.  Depois de um som ~experimental~ do KTL—uma espécia de mantra contemporâneo que durou muito tempo no mesmo om—, vieram Alva Noto e Ryuichi Sakamoto. Talvez a apresentação que mais valeu a pena ser vista ao vivo, em especial para notar o piano de Sakamoto: às vezes preparado à la Cage, às vezes tocado diretamente nas cordas ou em tradicionais acordes. Noto, não só do áudio mas também do visual, fez com que o minimalismo de suas batidas se refletisse nas projeções. Tudo muito coerente, muito coeso.
  2. Se o Kraftwerk exaltava aquilo a maravilha da máquina, o Gang do Eletro veio pra celebrar aquilo que é de mais humano: não ter limites para mostrar o ridículo. A grande máquina exaltada aqui era a aparelhagem paraense. Muita cor, muita batida, muito gritinho. Galera dançou, riu, se divertiu.
  3. Já em clima de derrota, Austra foi a última apresentação ao vivo de um dos palcos. Três mulheres cantando notas longuíssimas, tudo meio viajadão, com coreografias blasée do tecladista. Tava ótimo pro clima.
  4. Justice: imaginava uma coisa superfria e poser. Foi talvez o que mais levantou todo mundo não só pelo nome. Tava bem ritualístico.
  5. Aqui vai um manifesto pelo festival dos desconhecidos. Não que os convidados não tivessem lá sua fama, mas a maioria que foi tinha em mente um ou outro artista. Na hora, você acabava vendo quem não conhecia e saía no lucro. O “conceito” de ~música avançada~ amarrou bem todo mundo que estava ali e já preparava a recepção. Nada de grandes nomes um atrás do outro. Muita paz para assistir qualquer show.
  6. E pelo que eu vi, a organização foi ótima. Tirando alguns atrasos, o que deixou a programação de todo mundo muito confusa. Mas as filas eram praticáveis, a circulação funcionava, choveu e ninguém se molhou, banheiros convivíveis.

Mas como era impossível estar onipresente, agradeço qualquer comentário.

A gênese segundo Kraftwerk

Kraftwerk @ Sónar SP 2012 (Robson Bento/ Getty Images LatAm)

Kraftwerk @ Sónar SP 2012 (Robson Bento/ Getty Images LatAm)

Diz muito o show do Kraftwerk, no primeiro dia do Sónar 2012, ter sido praticamente indefectível. Cada uma de suas músicas a seu modo celebrava tudo aquilo que é automatizado ao mesmo tempo que cantava o desaparecimento do sujeito e do humano. Embora a galera toda estivesse animada, não era a mesma animação causada pelos filhos (talvez netos, bisnetos) do som do Kraftwerk: o Justice, por exemplo, tem um quê de sobrenatural/sobre-humano de um ritual primitivo, ignora o futurismo. Já o Kraftwerk exalta um futurismo sem violência ou fascismo, sem destruição; ao mesmo tempo, não se constrói, tudo já está posto.

Também não à toa o show soa ainda atual e é até sinônimo daquilo que é mais avançado. O som trata justamente daquilo que desde as décadas de 70 e 80 nem mesmo novas mídias ou novas técnicas conseguem mudar, mesmo esteticamente. Os meios se atualizam, com 3D, amplificadores mais potentes: o som artificial fica cada vez mais claro e límpido. Mas a celebração é a mesma da época do surgimento desse som—talvez até faça mais sentido nos dias de hoje. Não se trata de uma crítica, uma denúncia de alienação. A celebração é aparentemente consciente, com um quê de irônico e de alegórico. A sequência de músicas monta uma espécie de narrativa, da gênese desse mundo ao seu dilúvio (muito cedo para chamar de apocalipse).

The Robots seria esse princípio. Inicia o show como uma espécie de autoapresentação: somos robôs, substituíveis como um fusível—literalmente: somente Ralf Hütter permanece desde o início do grupo. O Éden é Metropolis, a cidade distópica de Fritz Lang, em que os humanos da cidade baixa estão destinados à sua coreografia maquinada. Curiosamente, nas projeções, somente prédios, muito similares, aparecem. Não há chão, calçada, esquina. O que importa é olhar para cima, fugir da terra—a origem primeira—e rumar ao céu—o controle divino.

O ponto mais animado do show veio logo em seguida. Os números que pulavam da tela em Numbers, eram cantados em diversas línguas. Eis a real língua universal, a língua das máquinas. Culminando na ferramenta que pensa e mais se aproxima do humano,  Computerworld mostra as inúmeras possibilidades do nascimento dessa nova sociedade. De Deutsche Bank à CIA e KGB (lembremos: o disco é de 1981). Só aí o humano aparece claramente: “business, numbers, money, people” são as possíveis coisas a serem contadas, controladas.

O único momento em que há uma crítica clara é em Radioactivity, parte de um manifesto ao rádio e ao ohm, o som fundamental, mas que na música em questão há com todas as letras um posicionamento: “stop radioactivity”. O único sinal claro de que todo o avanço pode gerar um apocalipse humano. Mas pelo tom, está mais para um dilúvio punitório.

Essa narrativa, que vai além do descrito aqui, foi uma maneira muito sagaz de unificar uma carreira gigantesca e com temas que mudavam a cada disco.


Os graves pulsavam forte durante toda a apresentação, não havia nada que mostrasse um erro, uma falha técnica. Estava tudo muito coerente. Usar os óculos em algum momento era deixado de lado, mas o efeito de ter um meio entre o público e o show só corroborava na celebração tecnológica. Muitos apenas assistiam, sem movimentos. Mas não desinteressados, entendiam a festa. Mesmo eletrônico, o som reproduz aquilo que há, na modernidade, de mais sistemático na música ocidental: o aspecto tonal, utilizado de modo calculado em suas repetições e na ordem de graus de qualquer música pop desde o início do século XX. Não causa estranhamento, não incomoda, é o ruído domesticado e levado para dentro de casa. E poderia ser repetido ad infinitum. Boing Boom Tschak/Musique Non-Stop encerraram a apresentação: eles poderiam ir embora e mesmo assim a música continuaria.